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Rotina da residência em Ginecologia e Obstetrícia

Rotina da residência em Ginecologia e Obstetrícia

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Sanar Residência Médica

15 min há 248 dias

Muitos médicos querem saber como é a rotina da residência em Ginecologia e Obstetrícia (G&O). Afinal, essa formação traz uma série de desafios que demandam preparo específico para essa residência médica

É possível obter a especialização em:

  • Ginecologia, que estuda o aparelho genital feminino;
  • Obstetrícia, que se debruça sobre a reprodução humana e aspectos como gestão, parto e puerpério;
  • Ginecologia Obstetrícia, na qual o profissional atua tanto em relação à rotina da mulher quanto à gestão e parto, além de cirurgias e operações como retirada de útero ou mama.

O Brasil conta com 30.415 especialistas em Ginecologia e Obstetrícia, que por sua vez são 8% do total de especialidades. São 14,65 especialistas por 100 mil habitantes e a maioria (51,3%) está no Sudeste, de acordo com a Demografia Médica no Brasil 2018, do Conselho Federal de Medicina (CFM). 

Entre os recém-formados em Medicina do mesmo ano, 245 escolheram a especialização, que dura 3 anos (acesso direto). Pelo levantamento, 3.018 médicos cursavam G&O, que possui total de 4.548 vagas autorizadas.

Para falar mais sobre a rotina da residência em Ginecologia e Obstetrícia, a Sanar Medicina conversou com duas médicas: Catharina Braga, do R1 no Hospital Roberto Santos, e Priscilla Pessoa, do R2 no Hospital Albert Einstein. As duas contaram um pouco sobre a experiência que estão tendo ao longo dos respectivos programas da especialidade.

Catharina conta que o Hospital Roberto Santos não era a sua primeira opção, mas foi onde passou e está gostando bastante da residência. Questionada por que escolheu Ginecologia e Obstetrícia, revela que optou por ser uma área pré-requisitada por outra especialidade.

“Durante toda a faculdade, eu queria cirurgia. No internato, vi que gostava da área cirúrgica, mas não curti Cirurgia Geral. Aí, quando passei por ambulatórios de mastologia, me encantei. Como você pode entrar [em Mastologia] por Ginecologia ou Cirurgia Geral, eu escolhi Ginecologia, que também é uma área cirúrgica”.

Da mesma forma, Priscilla conta que, inicialmente, não pensava em fazer Ginecologia. Mudou de ideia quando, na faculdade, passou a ter aula prática e atender em ambulatório da especialidade. “Gostei demais. Gosto de clínica e cirurgia e a Ginecologia nos dá a possibilidade de trabalhar com as duas coisas”, afirma. 

A opção pelo Hospital Albert Einstein foi outra dúvida que teve inicialmente. Formada pela Universidade Federal de Minas Gerais, Priscilla lembra que o programa de residência é relativamente novo e, por ter feito a graduação em uma instituição pública, sempre teve receio de uma residência particular. Entretanto, hoje, ela tem uma visão diferente. 

“A residência do [Hospital Albert] Einstein está crescendo bastante e, como tem poucos residentes, há muito procedimento. Ela tem grande oportunidade de investimento. Então não deixamos de operar porque falta material, por exemplo. Isso é muito bom”, relata.

Veja que existem coisas que você não pode deixar de saber antes de escolher a residência em Ginecologia e Obstetrícia. Por isso, acompanhe os detalhes abaixo e escolha bem a sua especialidade!

Como a residência é dividida 

De acordo com conteúdo programático do Ministério da Educação, a rotina do residente de Ginecologia e Obstetrícia no primeiro ano é mais voltada à formação obstétrica. Destaque para pré-natal de baixo risco, pronto atendimento, centro obstétricos, entre outras atividades. 

O segundo ano contempla mais Ginecologia, com atuação em ambulatórios especializados (como ginecologia endócrina, climatério e uroginecologia), além de atuação em pré-natal de alto risco e no Centro Obstétrico.

Já o terceiro ano deve ser de atuação na área de gravidez de alto risco e participação em ambulatórios especializados de Obstetrícia, mastologia, oncologia pélvica e também treinamento em atendimento de pacientes graves, afirma o MEC.

No Hospital Roberto Santos, o R1 possui um mês de imersão, no qual residentes passam inteiramente no centro obstétrico, um mês em cirurgia geral e um mês de férias. Os outros meses são divididos: 5 meses em Obstetrícia e 4 meses em Ginecologia.

“Em Obstetrícia, [a residência] é basicamente em enfermaria. Fazemos ambulatório de pré-natal e damos plantão no centro obstétrico, sendo que no R1 precisa dar plantões nos finais de semana. Em Ginecologia, a gente pega a escala que sobra e pode acompanhar histeroscopia, centro cirúrgico, ambulatório e também enfermaria”, detalha Catharina.

O R2, por sua vez, oferece alguns rodízios externos como UTI Obstétrica, na Maternidade José Maria de Magalhães, e Mastologia, no Hospital da Mulher. Além disso, os residentes se aprofundam mais na Ginecologia e Obstetrícia e não precisam mais dar plantões aos finais de semana.

No terceiro ano, o programa oferece um mês na Oncoginecologia e mais rodízios externos. Entre os principais, estão o Cedap (Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa) e a Clínica Gênese, especializada em reprodução humana. 

“Tanto no R2 quanto no R3, temos o rodízio opcional, que nos permite escolher rodar em qualquer especialidade dentro da GO, como Histeroscopia, Mastologia e Ginecologia. Esse rodízio pode ser do estado ou até do país”, explica Catharina. 

No Hospital Albert Einstein, o R1 é mais focado na Obstetrícia. Ao longo do ano, residentes passam 7 meses rodando em Obstetrícia, basicamente dando plantões, diurno e noturno, no centro obstétrico e no pronto socorro de Obstetrícia. 

“Também temos estágio na Cirurgia Ginecológica, onde ficamos com as pequenas cirurgias, e  Ginecologia Geral, com atendimento na UBS [Unidade Básica de Saúde]. Temos também dois meses de pré-natal de baixo risco no [Hospital Municipal] Vila Santa Catarina e no  ‘MBoi Mirim’ [Hospital Municipal Moysés Deutsch], que têm gerencia do [Hospital Albert] Einstein”, complementa Priscilla.

No R2, a Obstetrícia, basicamente, se concentra nos plantões e no Pré-natal de alto risco. Os residentes também passam a fazer grandes cirurgias como histerectomia, uroginecologia e pequenas cirurgias videolaparoscópica. Além disso, há estágios externos em Oncologia (no Hospital Pérola Byington), Ginecologia Endócrina e PTGI (Patologias do Trato Genital Inferior) na Unifesp.

Já o R3 é mais voltado para subespecialidades da Ginecologia e Obstetrícia como Mastologia, Cirurgia Oncológica, Reprodução Humana, PTGI e Cirurgia Ginecológica por Videolaparoscopia. O estágio externo ocorre no IAMSPE (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo),  em Uroginecologia.

“Aqui temos oportunidade de acompanhar cirurgias robóticas no próprio Einstein, unidade Morumbi. Aí tem estágio opcional de um mês, que pode ser tanto em serviços da própria residência como pode ser em outros hospitais de São Paulo, do Brasil ou no Exterior”, explica Priscilla. 

Alinhando as principais expectativas

Catharina revela que, antes de entrar na residência, tinha expectativas de adquirir conhecimento e segurança para passar nas enfermarias e lidar com as complicações obstétricas.

“Está cumprindo minhas expectativas. Queria ter um pouco de cirurgia para entrar e, hoje em dia, estamos conseguindo fazer cesárea e algumas pequenas cirurgias. A gente já tem mão para fazer isso”, comenta. 

Apesar de satisfeita, ela também conta que alguns aspectos do programa foram comprometidos pela pandemia do novo coronavírus. “Eu queria a parte de ginecologia, mas não está sendo tão proveitosa porque o hospital [Roberto Santos] fechou o centro de cirurgia ginecológica. Está abrindo agora, mas ainda não reabriu todas as partes”, explica. 

Priscilla diz que sempre soube que Ginecologia e Obstetrícia envolve tanto a parte clínica quanto a parte cirúrgica que esperava e que já esperava a demanda que encontraria durante o programa de residência.

“Por ter escolhido o [Hospital Albert] Einstein, eu esperava um atendimento de alto nível, com estrutura e recursos de um serviço particular. Mas também com volume de atendimento compatível com o SUS, que é bastante quantidade. O Einstein tem 80% dos seus atendimentos voltados para o SUS. Então, temos um volume de procedimentos ambulatoriais, partos e cirurgias bem grande. Por exemplo, no R1, eu fiz mais de 100 cesáreas.”, conta. 

Entretanto, apesar de já esperar por uma rotina intensa, Priscilla diz que a carga horária veio além do que imaginava. “Veio pesada, mas a gente se supera, porque é muito difícil. Você fica restrita, mas entrei com a mentalidade de me dedicar 100% a isso. Pois é o momento de investir na carreira e no aprendizado”, afirma. 

O melhor da residência em Ginecologia e Obstetrícia

Segundo Catharina, a residência em Ginecologia e Obstetrícia traz momentos marcantes para a vida profissional e pessoal. Ela afirma que a experiência tem sido gratificante, além de estar garantindo um excelente aprendizado.

“O momento do parto, por exemplo, é muito bonito. Eu sou apaixonada.  A residência também nos dá uma certa autonomia para fazer as coisas. Somos supervisionadas pelos preceptores. Isso é importante para termos segurança na hora de atender os pacientes, fazer enfermarias, entre outras coisas”, analisa. 

Por sua vez, Priscila afirma que a possibilidade de fazer clínica e a cirurgia na mesma especialidade deixa a residência mais dinâmica, sem monotonia. Ao mesmo tempo, diz ser especial a oportunidade de ajudar uma pessoa a ter uma vida saudável.

“Na Obstetrícia, você passa por um período que, na maioria das vezes, é especial para aquela família, que é o nascimento de um bebe. É gostoso fazer pré-natal e parto porque é emocionante. Você se vincula com todos da família, e dividir a emoção com eles é muito legal”, garante.

O mais difícil 

Como praticamente toda residência médica, uma das maiores queixas das residentes está na carga horária. São 60 horas semanais de muito serviço e, principalmente, muita pressão.

“O mais difícil é ter paciência para lidar com todo mundo, com o cansaço mental, físico e psicológico. Nos momentos livres, procuro aproveitar o máximo para descansar, estar com meu namorado, minha família, meus amigos. Isso acaba renovando”, revela Catharina. 

Priscilla também enxerga a carga horária como um ponto negativo da residência. De acordo com ela, não é fácil perder momentos familiares e cotidianos, mas que enfrenta essa realidade por ser obrigação de todo médico. Além disso, revela que precisa encarar outros desafios ao longo do treinamento.

“Como tem a parte oncológica, é difícil ter de lidar com essa subespecialidade. Do mesmo jeito que elogiei Obstétrica quando dá tudo certo, é muito ruim quando dá tudo errado. Tem casos de morte materna, de morte fetal. Quando isso ocorre, é muito difícil, porque é esperado um desfecho bom, não ruim”, enfatiza. 

Para conviver com essas dificuldades, Priscilla diz se apegar às amizades feitas ao longo da residência, à família e à sua fé. Além disso, ressalta que é essencial ter um bom relacionamento com os preceptores. 

“Eles que irão te auxiliar e compartilhar com você a experiência prática, teórica e de vida, por tudo que já passaram. Isso, no [Hospital Albert] Einstein, é uma das coisas que me surpreenderam, porque temos uma relação muito horizontal com os preceptores e os chefes da residência”, explica. 

Expectativa de trabalho e emprego

O mercado de trabalho para quem se especializa em Ginecologia e Obstetrícia é amplo. Abrange todos os níveis de atendimento, como ambulatorial, hospitalar, clínico, cirúrgico e laboratorial.  É possível não apenas ser ginecologista ou obstetra, mas também mastologista, ultrassonografista, cirurgião-ginecológico, entre outros. Ao mesmo tempo, o profissional pode prestar concurso público, atender o Sistema Básico de Saúde (SUS) ou mesmo abrir o próprio consultório.

A remuneração pode variar de acordo com a função escolhida, regime de contratação e região de atuação. Por exemplo, no caso de um obstetra, a Federação Nacional dos Médicos recomenda piso de R$ 11.675,00. Já plantonistas podem receber, além do salário regular, cerca de R$ 900/hora de plantão.

“É uma especialização muito rica, que traz uma gama interessante de opções de trabalho”, explica a Professora Karoline Landgraf. Assista ao vídeo abaixo para saber mais sobre essa formação:

Catharina afirma que ainda tem muito o que pensar sobre o futuro profissional. Ela conta que Ginecologia e Obstetrícia é uma área bem ampla. Apesar de ter entrado na especialidade pensando na Mastologia, hoje ainda não está decidida sobre o rumo que irá tomar.

“A Mastologia, pelo que soube, é uma das áreas que têm o mercado muito fechado, focado em algumas poucas empresas. Isso dificulta um pouco, mas não impossibilita a atuação de novos profissionais. Gostei muito de Estereoscopia e também de Obstetrícia, mas é muito cansativo, e eu quero algo mais leve. O mercado de trabalho precisa de inovação, de profissionais com propostas inovadoras. Se você conseguir isso, terá um bom trabalho”, afirma. 

Priscilla diz acreditar que Ginecologia e Obstetrícia é uma especialidade promissora porque sempre haverá demanda. Tem o objetivo de seguir carreira acadêmica e pretende seguir alguma subespecialidade.

“As pessoas estudam cada vez mais, então, você se especializar dentro de algo da sua especialidade é importante para seguir uma linha de atendimentos de qualidade. Ainda estou em dúvida, mas acho que partirei para a área cirúrgica exatamente porque abre um leque de oportunidades. E não te impede de fazer plantão em obstetrícia”, explica.

Conclusão sobre a rotina da residência em Ginecologia e Obstetrícia 

A residência em Ginecologia e Obstetrícia, como qualquer outra, oferece algumas dificuldades. A carga horária é a principal delas, o que exige resiliência do residente que tanto deseja se especializar. Entretanto, a parte difícil não é suficiente para suprimir as vantagens de uma especialização.

Catharina diz que, apesar de cansativa, a residência tem a vantagem de preparar para uma ampla atuação no mercado de trabalho. “Além disso, [Ginecologia e Obstetrícia] é muito linda. Eu adoro. O momento do parto, mesmo, e toda comoção gerada são incríveis. Você conseguir oferecer todo conforto na hora do parto humanizado é muito bom”, estimula.

Da mesma forma, Priscilla afirma que a área recompensa muito. Além disso, se a pessoa realmente quer atuar em Ginecologista e Obstetrícia, deve seguir o sonho e todos os desafios que ela traz.

“A Ginecologia é o pivô da saúde da mulher. Não existe outro médico que vai conseguir dar assistência à mulher tanto nos problemas de saúde quanto no momento em que está sendo mãe. A ginecologista faz tudo isso. Apesar de ser puxado, é muito gratificante, eu amo o que eu faço, de verdade”, conclui. 

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